Professor da UFOP descarta relação do rompimento da barragem de Fundão com surto de febre amarela

Fevereiro 14, 2017
foto Sérvio

Nas últimas semanas, tornou-se assunto rotineiro na mídia a relação entre a febre amarela e o desastre decorrente do rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, em novembro de 2015. Para debater o assunto, foi realizado em Belo Horizonte o “Painel de especialistas: o que é a febre amarela em antigas regiões florestais, hoje altamente povoadas, da bacia do Rio Doce?”. O evento, realizado pela Fundação Renova nos dias 19 e 20 de janeiro, contou com a presença de pesquisadores de diferentes áreas, entre eles o biólogo e professor de Ecologia da UFOP, Sérvio Ribeiro. 

O docente da UFOP descarta a possibilidade de que o surto atual seja consequência da lama que invadiu o Rio Doce após o rompimento da barragem, uma vez que a relação apenas poderia existir se o rejeito tivesse adentrado as florestas das regiões atingidas pelo vírus, o que não aconteceu. De acordo com o professor, as matas afetadas foram as da região de Mariana, onde não existem casos da doença. No médio e baixo Rio Doce, locais que são naturalmente áreas de florestas densas e úmidas, a lama se manteve nas margens do rio e não teve força para causar um desmatamento.

A conclusão do professor vem do fato de que todo o ciclo de vida do mosquito acontece dentro da floresta. Seu ambiente são as copas das árvores ou outras estruturas que formem poças de água limpa, condição necessária para a procriação do mosquito vetor. “(O rompimento) é um desastre, é um problema de larga escala e tem que ser resolvido, porém, na hora que você traz isso como uma explicação para um surto de febre amarela, não faz muito sentido. O mosquito, o macaco e o vírus estão intrinsecamente relacionados ao interior da mata”, afirma Sérvio.

Surtos como os que acontecem hoje ocorrem, geralmente, uma vez a cada sete anos, em regiões diferentes. O último registrado no Leste de Minas foi em 2003. A causa deste aumento de casos de febre amarela, no entanto, é desconhecida, talvez devido à falta de investimentos no estudo de doenças tropicais, explica. Ele considera ser fundamental uma pesquisa prévia sobre a doença, para entender o ciclo durante e depois dos surtos.

Uma possível explicação é a coincidência do momento em que os hospedeiros estão mais vulneráveis e os vírus mais potentes, com uma capacidade reprodutiva maior. Em 2016, antes do início do surto, foram registradas chuvas fortes e intensas, o que pode estar relacionado ao aumento da população dos vetores. O professor explica que “a natureza não é um sistema em equilíbrio, está sujeita a mudanças constantes. Distúrbios são naturais. Não necessariamente o sistema depende de perturbação”.

Os macacos atuam como sentinelas da doença, sendo afetados antes dos humanos. A morte de espécies na floresta é um sinal de que o vírus está lá, mas somente o mosquito pode infectar humanos. “A própria forma com que os órgãos de saúde lidam com a coleta desses dados precisa ser revista. Por exemplo, macacos mortos são incinerados, quando deveriam ser recolhidos e estudados. Há uma ausência de dados científicos que nos permitam a prevenção para o futuro”, alerta.

MEIO URBANO - O ciclo de vida do Haemagogus e do Sabethes da Família Culicidae, mosquitos transmissores da febre amarela, em muito se difere do ciclo do Aedes aegypti, responsável pela transmissão de dengue, zika e chikungunya. Em comum, esses insetos têm a característica de botar ovos em pequenos ambientes de água, mas o Haemagogus e o Sabethes são espécies relacionadas com o ambiente do interior de florestas e dependem de outras questões inerentes, como temperatura, umidade relativa do ar e vento. Segundo o professor, eles raramente transcendem esse ambiente.

Já a dengue é uma doença contraída em meio urbano, onde o mosquito se prolifera em quintais de casas, por exemplo. A febre amarela não tem incidência nessas áreas desde o início da década de 40, ou seja, hoje, as pessoas são infectadas porque estão indo ao encontro do Haemagogus e do Sabethes nas áreas verdes e regiões rurais, onde é o habitat natural desses vetores. 

O professor Sérvio explica que o Aedes já foi responsável pela transmissão da febre amarela no meio urbano, mas não há registro disso há pelo menos 75 anos. “Tivemos três ciclos de invasão do Aedes aegypti no Brasil, estamos na terceira delas. O Aedes aegypti que transmitia a chamada febre amarela urbana foi completamente exterminado em 1942. Temos o risco de, em um determinado momento, ela ser transmitida novamente por ele, mas ainda não foi registrado nenhum caso”, explica Sérvio.

DADOS - O último boletim do Ministério da Saúde, divulgado ontem (9), informa que são, desde dezembro de 2016, 1.112 notificações da doença, sendo 221 casos confirmados e outros 802 em investigação. Em todo o país, foram com 76 mortes causadas pela febre amarela confirmadas. Em Minas, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Saúde, em 2017, até 9 de fevereiro, foram notificados 954 casos de febre amarela, sendo 195 foram confirmados. De 161 óbitos suspeitos, 68 foram confirmados.

Pessoas que moram ou viajarão aos locais de risco devem seguir a recomendação médica e receber uma dose da vacina, que é a principal forma de prevenção. O Centro de Saúde da UFOP, localizada no campus Morro do Cruzeiro, é uma das unidades que distribui a vacina gratuitamente em Ouro Preto.

PAINEL – O Painel ainda contou com Sergio Lucena Mendes, professor do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES); Eduardo Lázaro de Faria da Silva, médico veterinário de criadouros comercias de psitacídeos silvestres e exóticos e jacarés-do-papo-amarelo; Betânia Paiva Drumond, professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); José Carlos Magalhães, que atua na graduação de Engenharia de Bioprocessos e nos programas de pós-graduação em Biotecnologia e Tecnologias para Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ); Márcia Chame dos Santos, coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre e do Programa Institucional Biodiversidade e Saúde da Fiocruz; e Adriano Pereira Paglia, professor do Departamento de Biologia Geral da UFMG.
 
Confira o documento gerado pelo Painel de especialistas:
 

 

o-que-sabemos.pdf131 KB